Futuros possíveis de uma sociedade com IA: uma reflexão técnico-política

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Definitivamente, esta não é a primeira vez que profissionais de TI enfrentam um alarde catastrófico. Na verdade, não é a primeira onda nem mesmo desde que comecei a atuar na área, em 2014. Quem está no mercado há mais tempo certamente já viu esse filme ser reprisado muitas vezes.

Na faculdade, um professor lembrava que o “fim da profissão de programador” já era anunciado quando surgiram as primeiras IDEs inteligentes, integradas com ambientes de compilação e interpretação de código capazes de apontar a linha exata do erro. A lógica da época parecida imbatível: “Se o software sabe onde está o erro, ele sabe como corrigir. O próximo passo é aprender a escrever a si mesmo.”

Sabemos que a história não foi bem assim. No entanto, ignorar os impactos atuais da IA na nossa profissão e na sociedade como um todo — ou torcer para a bolha estourar e voltarmos a trabalhar exatamente como antes do Claude Code e do Codex — é um exercício de ilusionismo. Argumenta-se frequentemente que o custo de manter a estrutura atual de IA é insustentável. Contudo, historicamente, toda tecnologia revolucionária nasce cara: ou ela se adapta em formato e modelo de consumo, ou a indústria de hardware e recursos que suporta a tecnologia recebe os aportes necessários para se fortalecer e sustentar a escala dos produtos.

A partir daqui, deixo de lado o viés estritamente técnico para entrar numa reflexão político-pessoal. Considere isto um aviso.

Um segundo aviso prévio, mas que já está exposto de certa forma: nenhuma das hipóteses aqui envolve o domínio das máquinas sobre os seres humanos, tampouco cenários parecidos com o filme Idiocracia.


1. A IA como preparação para o futuro da sociedade

Gosto de encarar a corrida da IA por um ângulo diferente: e se um dos grandes motivadores (conscientes ou não) dos bilionários for a preparação da sociedade para a tendência de diminuição populacional pela qual estamos passando?

Não é preciso um diploma em Economia para notar que o modelo produtivo atual em que vivemos — pensando na disponibilidade de produtos e serviços — é incapaz de se sustentar se passarmos por uma profunda redução demográfica, afetando tanto a força de trabalho quanto a massa consumidora. A pandemia de COVID-19 deu uma amostra disso: não houve uma diminuição drástica na população global, mas sim uma indisponibilidade temporária de pessoas devido aos lockdowns, o que gerou escassez ou, no mínimo, muita dificuldade para acessar determinados produtos e serviços essenciais que dependiam do trabalho humano.

Até o surgimento da IA generativa e a comprovação do seu potencial para substituir seres humanos em tarefas cujo trabalho necessário seja mais “intelectual” (já que a robótica mecânica não teve o mesmo salto recente que a IA em software e linguagem), não havia resposta clara sobre como a sociedade iria superar o envelhecimento populacional e a queda na taxa de natalidade.

Só existe uma ampla rede hospitalar disponível em grandes cidades porque há pessoas nascendo, formando-se médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais de limpeza para trabalhar nesses locais. Da mesma forma, só existe demanda para essa infraestrutura se houver pessoas necessitando do serviço. Pensar que a diminuição populacional seria proporcional de ambos os lados não é realista: a possibilidade de um desequilíbrio estrutural é real.

Temos uma aplicação plenamente plausível da IA, no seu nível atual, bem diante de nós: no suporte ao cliente, é cada vez mais comum o uso de agentes de IA como primeira camada de atendimento, com o repasse a um humano ocorrendo apenas quando a IA é incapaz de resolver o problema. Isso já existia antes da popularização da IA generativa por meio dos chatbots engessados, mas deixou de ser um chat rígido com respostas prontas e busca por palavras-chave para se tornar um agente capaz de consultar bases de dados complexas e considerar todo o contexto da solicitação.

A partir disso, é natural prever que, no futuro, qualquer solicitação de primeiro nível seja atendida inicialmente por uma IA. Dependendo do contexto, os exemplos práticos são muito claros:

  • Triagem na Saúde: Imagine uma sala autônoma em um pronto-socorro onde a IA possa avaliar diretamente os sinais vitais de pacientes que não necessitem de atendimento de urgência imediata.
  • Resolução Técnica Operacional: Um agente de suporte capaz de orientar um cliente a reiniciar uma máquina ou um modem, ou até mesmo executar tais operações remotamente com base nos dados recebidos, explicando ao cliente como proceder após a ação.

Nesse modelo, profissionais humanos atuariam apenas em casos mais complexos, dependentes de análise subjetiva, de dados visuais ou de nuances contextuais que a IA não está preparada para observar. De certa forma, essa transição já começou.

Talvez o tempo necessário para que a IA avance em papéis mais complexos seja justamente o tempo em que a população e a demanda por alta variedade e disponibilidade de serviços diminua. Nesse cenário, o objetivo seria garantir que ninguém fique sem médico, sem supermercado ou sem transporte coletivo; no fim, é até positivo que essa automação ocorra. Vale ressaltar que não estamos abordando aqui como a população que hoje ocupa empregos ditos “não qualificados” seria realocada; esse é um problema social de proporções muito maiores.


2. O fim do trabalho não significa o fim da renda

Entrando no terreno da singularidade — onde a IA e a robótica ocupariam quase todas as funções produtivas —, os seres humanos passariam a ser sustentados pelo valor gerado por essa força de trabalho digital.

Existem inúmeras maneiras teóricas de distribuir essa renda: desde uma divisão igualitária nos moldes do bem-estar socio-comunista até um simples arrendamento de força de trabalho (similar a um aluguel hoje em dia), no qual o proprietário fica com a renda produzida pela força autônoma que possui — seja em androides ou em modelos rodando em computadores. Na prática, este cenário pode pender tanto para uma superconcentração de riqueza quanto para a erradicação da miséria e minimização da má distribuição de recursos.

Com meu pessimismo sincero, acho pouco provável que vejamos a IA ser usada no curto prazo para fomentar espontaneamente a distribuição igualitária de recursos. Porém, vejo dois cenários que forçariam essa mudança:

  1. Colapso do Consumo: A queda na renda da classe trabalhadora impede o consumo de produtos e serviços que geram a própria renda para a classe rica. A economia iria estagnar até que houvesse uma ação massiva para distribuir renda.
  2. Esvaziamento da Meritocracia: Uma sequência de revoluções socio-comunistas facilitadas pelo fato de o trabalho ter se tornado, de qualquer maneira, algo executado pelas máquinas, dando ainda menos sentido à ideia da meritocracia.

As lições e alertas de Detroit: Become Human

No cenário menos favorável, uma excelente ambientação dessa dinâmica está no enredo do jogo Detroit: Become Human. Lançado pouco tempo antes da popularização do ChatGPT, o jogo traz a biorobótica como tecnologia chave e explora com maestria os dilemas e rachaduras dessa sociedade automatizada:

  • Desemprego e decadência social: Vemos o drama de um taxista que se afunda em dívidas e substâncias ilegais após ter sua profissão completamente substituída por táxis autônomos.
  • Automação e dilemas na saúde: Um policial perde o filho na mesa de cirurgia após um acidente de carro porque o cirurgião plantonista estava sob efeito de substâncias e incapacitado de operar; um androide tentou performar o mesmo procedimento que um humano e falhou.
  • Coisificação e falta de prevenção: Um robô se envolve em um acidente que provoca a morte de um ser humano, e vemos como as forças de autoridade tratam o androide como mero objeto descartável, em vez de se darem ao trabalho de entender o que levou aquilo a acontecer e adotar uma abordagem preventiva para evitar falhas futuras.

Mesmo que ainda não tenhamos os androides físicos idênticos aos do jogo, a IA generativa e os modelos de decisão já mostram potencial para assumir alguns papéis e obter os mesmos resultados e dilemas sociais dos personagens.

Viés, transparência e governança

Outras questões críticas a se considerar são o enviesamento de resultados — algo que já ocorre —, com consequências ainda mais desastrosas em uma sociedade onde determinados serviços públicos não tenham alternativas humanas.

Por exemplo: como garantir que uma IA de serviços públicos não seja enviesada por seus criadores para direcionar tendências em eleições, aprovação de contratos ou concessão de benefícios? Se essa IA for desenvolvida por uma empresa privada, a criação, manutenção e treino do modelo exigirão uma transparência sem precedentes. Se for criada dentro do próprio serviço público, também será necessária extrema transparência para evitar a influência de diferentes gestões governamentais ou de funcionários agindo em benefício próprio.

De qualquer maneira, penso que considerar a IA algo limitado a apenas dar “suporte” a profissões existentes não é racional: se existem pessoas desempenhando funções puramente operacionais de suporte a outras funções, a IA é, no mínimo, capaz de substituir esse grupo de pessoas.


O copo meio cheio

Ao mesmo tempo, olhando pelo lado otimista, seria possível manter o nível de tudo o que há na sociedade com menos pessoas, menos consumo de recursos e menos horas de trabalho humano. A IA também pode acelerar respostas para problemas históricos da humanidade:

  • Avanços na Saúde: O desenvolvimento de vacinas para vírus que sofrem mutação rápida, como o HIV. Recentemente, tivemos a notícia de que a IA conseguiu apontar novas substâncias com potencial antibiótico simplesmente analisando a estrutura e composição química de medicamentos existentes e calculando fórmulas derivadas que fossem estáveis o suficiente. Algumas sugestões avançaram para testes clínicos iniciais — um tema muitíssimo relevante dada a preocupação atual da área da saúde com a resistência bacteriana e o uso indiscriminado de antibióticos.
  • Computação Quântica: O desenvolvimento ainda mais acelerado da computação quântica (e aqui cabe uma provocação: será que os modelos de IA atuais poderiam se beneficiar da computação quântica para se tornarem ainda mais precisos e consumir exponencialmente menos recursos?).

Conclusão

A conclusão desta reflexão é tão resolutiva quanto seu início: eu não tenho nenhuma certeza de para onde vamos, mas sei que não ficaremos na mesma e não retornaremos a um mundo antes da IA — pelo menos não sem considerar possibilidades cataclísmicas globais.